13 de junho de 2026

Chacina no Rio expõe farsa de Cláudio Castro, por Luís Nassif

Ofensiva da ultra-direita tenta classificar facções como terroristas para justificar ações extraconstitucionais e cooperação com EUA.
Foto de Fernando Frazão - Agência Brasil

Foi a operação mais desastrada da história de uma polícia historicamente violenta. Na última contagem 64 mortos, dos quais quatro agentes de segurança, mais de 80 presos e um governador perdido.

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No início, Cláudio Castro quis passar a impressão de uma ação preparada durante meses. 

A operação mobilizou 2.500 agentes, tendo como alvo líderes do Comando Vermelho. Segundo ele, a ação foi planejada para ocorrer majoritariamente em áreas de mata, para minimizar riscos aos moradores das comunidades. 

Castro declarou que o estado está “sozinho nessa guerra” e que o governo federal teria negado apoio ou participação nas operações, incluindo o uso da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), instrumento constitucional para participação das Forças Armadas.

No decorrer do dia, uma a uma, suas declarações foram sendo desmentidas pelos fatos. Nunca houve pedido de GLO (Operação de Garantia da Lei e da Ordem).

O que ocorreu foi a morte da médica da Marinha Gisele Mendes, em dezembro de 2024, atingida por uma bala perdida dentro do Hospital Naval Marcílio Dias, na Zona Norte do Rio. Na ocasião, a Marinha colocou blindados cercando o hospital, para proteger a área, dentro do limite legal de 1.400 metros em torno de instalações militares.

Em janeiro de 2025, Castro formalizou pedido ao Ministério da Defesa, solicitando blindados da Marinha. Mas a Advocacia Geral da União indicou que o uso de blindados só poderia ocorrer no contexto de uma GLO.

Intervenção estrangeira

O que está por trás dessa chacina é algo mais grave. Trata-se de uma ofensiva dos governadores de ultra-direita, tentando caracterizar uma situação de caos para enquadrar as organizações criminosas em organizações terroristas.

A designação abre caminho para que as agências de segurança norte-americana tratem a organização como “ameaça à segurança nacional” e utilizem instrumentos de contraterrorismo, como interceptações, ligações com iniciativa militar ou forças especiais.

Também dá legitimidade política para que o Estado invoque quadro de “emergência nacional” em que ações extraordinárias podem ser justificadas.

Veja o que diz a Rand Corporation, um think tankl especializado em pesquisa aplicada em temas de segurança nacional, política internacional, defesa:

“Designar esses grupos como terroristas disponibiliza novas ferramentas legais e políticas que podem ser a chave para deter as ambições de expansão global das organizações criminosas transnacionais (…).

“A nova designação de terrorismo confere ao governo dos EUA autoridade legal para processar indivíduos que auxiliam ou trabalham para essas organizações, mesmo que esses indivíduos estejam localizados fora das fronteiras dos EUA”

E o que diz a Casa Branca?

“As atividades dos cartéis ameaçam a segurança do povo americano, a segurança dos Estados Unidos e a estabilidade da ordem internacional no Hemisfério Ocidental. Suas atividades, proximidade e incursões no território físico dos Estados Unidos representam um risco inaceitável à segurança nacional dos Estados Unidos (…)

É política dos Estados Unidos garantir a eliminação total da presença dessas organizações nos Estados Unidos e sua capacidade de ameaçar o território, a segurança e a proteção dos Estados Unidos por meio de suas estruturas extraterritoriais de comando e controle, protegendo assim o povo americano e a integridade territorial dos Estados Unidos”.

Portanto não é coincidência que, no momento em que a aproximação de Donald Trump com Lula desarma o discurso bolsonarista, Flávio Bolsonaro sugerindo aos EUA bombardear a baía da Guanabara.

Governadores de perfil conservador estão tentando reclassificar facções como grupos terroristas, o que teria implicações jurídicas e diplomáticas:

Cláudio Castro usou o termo “narcoterrorismo”.

Romeu Zema (MG) e Tarcísio de Freitas (SP) apoiam a equiparação legal.

O deputado Danilo Forte (União Brasil) apresentou projeto de lei para classificar facções como terroristas.

O governo do Rio enviou relatórios aos EUA tentando incluir o CV como grupo terrorista.

Nos próximos dias, o Rio de Janeiro viverá uma guerra civil, com a polícia e o CV procurando vingar seus mortos. E com a constatação óbvia de que a maioria das vítimas não tinha relação com o Comando Vermelho.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    29 de outubro de 2025 7:34 am

    Os agentes coloniais permanecem sem controle.

  2. Raimundo Alcides

    29 de outubro de 2025 7:57 am

    Triste o Estado do Rio de Janeiro ter um Governo incompetente que usa da mentira para comunicados aos seus moradores e consequentemente contribuintes.

  3. Rui Ribeiro

    29 de outubro de 2025 8:07 am

    “A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra os seus próprios súditos, e o seu objetivo não é conquistar territórios, nem impedir que os outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade”. – George Orwell

    “Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação”. – Karl Marx e Friedrich Engels

    A burguesia só se faz presente nas Favelas através de suas forças repressivas e se faz presente apenas para matar, perseguir, roubar, pois policiais roubam Favelados. Por isso, espero que chegue logo o dia em que Morro desça e não seja carnaval”.

    É uma selvageria essa carnificina.

    No beco escuro explode a violência
    No meio da madrugada
    Com amor, ódio, urgência
    Ou como se não fosse nada
    Mas nada perturba o meu sono pesado
    Nada levanta aquele corpo jogado
    Nada atrapalha aquele bar ali na esquina
    Aquela fila de cinema
    Nada mais me deixa chocado
    Nada!

    Selvagem

    A polícia apresenta suas armas
    Escudos transparentes, cassetetes
    Capacetes reluzentes
    E a determinação de manter tudo
    Em seu lugar

    O governo apresenta suas armas
    Discurso reticente, novidade inconsistente
    E a liberdade cai por terra
    Aos pés de um filme de Godard

    A cidade apresenta suas armas
    Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
    E o espanto está nos olhos de quem vê
    O grande monstro a se criar

    Os negros apresentam suas armas
    As costas marcadas, as mãos calejadas
    E a esperteza que só tem quem tá
    Cansado de apanhar

  4. Rui Ribeiro

    29 de outubro de 2025 8:31 am

    “Eu não pedi ajuda. A pergunta do repórter foi se o governo federal estava participando da operação, eu falei que não e perguntaram por quê. Nas últimas três ocasiões, pedimos blindados e a resposta foi que só poderiam ser cedidos com GLO. Como o presidente é contra [a GLO, não adiantava pedir de novo”. – Cláudio Castro

    Todo mundo se diz cristão mas ninguém pratica o que Jesus Cristo ensinou: “Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e àquele que bate, a porta será aberta”. – Mateus

    Pois bem. O cristão Cláudio Castro pede blindados mas não pede GLO, porque se pedisse a GLO e, eventualmente, seu pedido fosse atendido, ele não teria uma desculpa esfarrapada para culpar o Lula pela carnificina promovida nos Morros.

    A direita é favorável ao GLO, pois de acordo com Paul Lafargue:

    “Já não se podem ter ilusões sobre o caráter dos exércitos modernos, são mantidos em permanência apenas para reprimir “o inimigo interno”; e assim que os fortes de Paris e de Lyon não foram construídos para defender a cidade contra o estrangeiro, mas para a esmagar no caso de revolta. E se fosse preciso um exemplo sem réplica, citemos o exército da Bélgica, desse país de Cocagne do capitalismo; à sua neutralidade é garantida pelas potências européias e, no entanto, o seu exército é um dos mais fortes em proporção da população. Os gloriosos campos de batalha do bravo exército belga são as planícies do Borinage e de Charleroi, é no sangue dos mineiros e dos operários desarmados que os oficiais belgas ensangüentam as suas espadas e ganham os seus galões. As nações européias não tem exércitos nacionais, mas sim exércitos mercenários, que protegem os capitalistas contra o furor popular que os queria condenar a dez horas de mina ou de fábrica de fiação”.

  5. Carioca

    29 de outubro de 2025 10:30 am

    Reedição do imbróglio uso do fumacê: O carro é municipal e o inseticida é federal.

    Quando chegarem a uma conclusão a “rapaziada” já não vai mais usar drones … vão ter um arsenal de misseis balísticos interestaduais … ou intercontinentais …

  6. FRANCISCO OLIVEIRA

    29 de outubro de 2025 10:54 am

    Obrigado Nassif, por esclarecer. Eu passei o dia inteiro explicando para alguns “entusiastas” da violência próximos de mim a estratégia da direita bolsonarista por trás desse acontecimento É claro, depois de ter ouvido o Sen Flavio em seu pedido de intervenção do EUA na Baia da Guanabara, que a coisa estava indo para um novo rumo. Quando ouvi na boca do Gov. Claudio castro a palavra “Narcoterrorismo”, a estratégia ficou clara. Nem uma palavra da Imprensa oficial sobre isso, o que não chega a ser uma novidade.

  7. Fábio de Oliveira Ribeiro

    29 de outubro de 2025 1:18 pm

    A polícia mata, os juízes legitimam a matança porque recebem salários acima do teto e penduricalhos abaixo da moralidade, o governador colhe os dividendos políticos e a imprensa notícia a tragédia caçando clicks e lucros. Esse negócio só é sustentável porque a chacina de ontem será esquecida amanhã. Depois de amanhã a matança poderá recomeçar.

  8. José Machado

    29 de outubro de 2025 2:16 pm

    É muito provável que eles estão insistindo na *intervenção* militar americana aqui no Brasil.

    Como não conseguiram em 8 de Janeiro de 2023 a *intervenção* militar via forças armadas.
    Por mais que tivessem tentado; ajoelharam-se, brandiram, nos portões dos quartéis
    das unidades militares brasileiras em busca de armamentos e violência para o golpe de Estado.

    Eles ainda não desistiram, especialmente seguidores do Eduardo Bolsonaro que faz de um tudo,
    fugido do Brasil em terras estrangeiras, para urflar intervenção atingir a pátria brasileira em sua
    jornada para livrar o pai da cadeia e tomar o poder no Brasil.

  9. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    30 de outubro de 2025 8:06 am

    Eu desconfio que o governador do Rio de Janeiro, que com sua operação massacre, ele pode ser mais um tirano a reinvidicar o prémio ignobil da paz de cemitério.

  10. Rui Ribeiro

    30 de outubro de 2025 10:30 am

    O Cláudio Castro, da mesma forma que toda a elite sanguessuga, é cristão por conveniência, não por amor ou convicção.

    “Há uma categoria de pessoas que, se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas, homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados, funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos, capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados, economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias, todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”.” – Bakunin

  11. Carlos Roberto Rosado Silva

    30 de outubro de 2025 10:33 am

    O Brasil tem que livrar se dessa familia nojenta, tem que livrar se desses deputados que conseguiu se eleger como se raspa o ânus. Não temos mais tempo pra essas barbárie. O governador do Rio interviu pra liberar a usina que tinha sido fechada pra averiguações com o PCC um dia antes do genocídio no Rio, se ele está fazendo isso porque matar na favela tem algo errado aí e deve ser investigado pelo PF.

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